BrasilPolítica

Lula escreve a famílias evangélicas em meio a rejeição no segmento

Texto pede que fiéis recorram à oração antes de votar e defende o fim da escala 6x1

Eduardo Marques

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, enviou nesta quarta-feira (14) uma carta às famílias evangélicas. O texto pede que os fiéis busquem “discernimento” na hora de escolher em quem votar. A mensagem foi divulgada nas redes sociais pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Na carta, Lula diz ter “total respeito” pelos cristãos e afirma dividir com as famílias evangélicas o compromisso de cuidar das famílias brasileiras. O presidente também lista ações e propostas do governo e encerra com um apelo ligado à eleição.

“Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição. Vá às urnas com a consciência livre e com a aliança renovada com o nosso amado Brasil”, diz o texto.

Os pontos da carta

Lula cita o combate às apostas on-line e diz que as bets “estão destruindo tantos lares”. Ele também defende dois dias de descanso semanal e associa o tempo livre à convivência familiar. Para os evangélicos, segundo a carta, isso significa mais tempo na igreja, “em comunhão com os irmãos”.

O presidente afirma ainda que se empenha em proteger mulheres, combater a violência e o crime organizado e proteger crianças e adolescentes. O documento menciona, por fim, a saúde pública, o aumento da renda e a preservação da natureza.

Resistência no segmento

A carta chega num momento difícil para Lula entre os evangélicos. Pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostrou o presidente com 27% das intenções de voto nesse grupo no primeiro turno. Flávio Bolsonaro (PL) tinha 46%.

O Datafolha de 1º de outubro aponta o mesmo cenário. No conjunto do eleitorado, Lula e Flávio estão tecnicamente empatados em uma simulação de segundo turno, com 48% e 45%. Entre os evangélicos, porém, Flávio mantém vantagem.

A aproximação com esse público não é novidade na trajetória do petista. Em 2022, a campanha de Lula também divulgou uma carta aos evangélicos. Na ocasião, ele criticou o uso eleitoral da fé e disse ser pessoalmente contra o aborto.

Mobilização nas redes

O advogado-geral da União, Jorge Messias, que é evangélico, incentivou o compartilhamento da carta nas redes sociais. Ele e o vice-presidente Geraldo Alckmin também divulgaram nesta quarta um vídeo convidando o público cristão a entrar no canal “Cristãos com Lula 13”, criado para mobilizar eleitores religiosos pela reeleição.

Na gravação, Alckmin, que é católico, se dirige aos fiéis das duas religiões. “Você que é católico como eu ou evangélico como o Messias”, diz.

Contexto do dia

A divulgação ocorre em meio à suspensão do canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou na terça-feira (13) que o canal fique fora do ar por 48 horas.

O movimento também coincide com a votação, prevista para esta quarta, da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1. A medida é uma das principais bandeiras de Lula e ganhou destaque na campanha pela reeleição.

Carta na íntegra

 

“Carta de Luiz Inácio Lula da Silva às Famílias Evangélicas Brasileiras
Queridas famílias evangélicas do Brasil,
Resolvi escrever a vocês com o coração aberto, cheio de verdade, pois os cristãos com quem tenho dialogado estão me ensinando que a Bíblia nos orienta a “seguir a verdade em amor.” Não sou evangélico, mas tenho total respeito por quem é, assim como tenho por todas as religiões e profissões de fé. Temos uma coisa em comum: o compromisso de cuidar das famílias brasileiras, pois somente lares fortes podem produzir uma nação forte!
Aprendi dentro de casa o valor do trabalho, resistindo bravamente com minha mãe, Dona Lindu, para criar uma família com sete irmãos. Com essa base familiar sólida, aprendi a amar e a lutar para transformar a realidade. É nesse chão que a minha história se encontra com a história de vida e de fé da sua família. Entrei para a política com esse compromisso em meu coração: ajudar a mudar as condições de vida das famílias pobres e batalhadoras.
Numa longa e difícil jornada, me tornei Presidente do Brasil por três vezes. Agora, disputo o quarto mandato. Cheguei até aqui com a proteção divina, orientado por um propósito e missão. Tenho absoluta certeza de que, se não fosse a boa mão de Deus, eu nem teria saído vivo das várias batalhas que enfrentei. Guiado por Ele estou aqui, mais uma vez, fazendo a defesa das famílias brasileiras com ações concretas, como tenho feito ao longo de toda a minha jornada política, e não com discursos vazios, como muitos outros fazem. As famílias são a base do Brasil que queremos.
Dentre as várias ações do meu governo que abençoam suas famílias, relembro a vocês, por exemplo, o combate às apostas online, as Bets, que estão destruindo tantos lares, e meu empenho para que todos tenham dois dias de descanso semanal, pois a vida não se resume ao trabalho. As pessoas precisam de mais tempo para descansar, ter lazer e estar em casa com os seus, fortalecendo os vínculos familiares. Para o povo evangélico, isso garante, inclusive, mais tempo para estar na igreja em comunhão com os irmãos e em adoração.
Sigo também empenhado em proteger as mulheres, combater todos os tipos de violência e o crime organizado com inteligência: prender os bandidos, proteger as nossas crianças e adolescentes e poupar as vidas inocentes.
Jamais poderão nos acusar de estarmos comprometidos com políticas que destroem vidas, que fecham templos ou que não demonstrem respeito, como Jesus nos ensinou, que devemos amar a todas as pessoas. Precisamos avançar mais, precisamos amar mais! Até aqui, ajudei a arrumar a nossa casa, o Brasil. Mas sei que ainda há muito a ser feito. Estou escutando o clamor legítimo e urgente de vocês por mudanças, por segurança, por futuro e prosperidade.
Estou comprometido com a melhoria da saúde pública, para que sua família fique bem cuidada; com o aumento real da renda, com poder de compra; e com a preservação da natureza criada por Deus. O Brasil é nosso! Eu vou escutar e atender aos anseios de vocês.
Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição. Vá às urnas com a consciência livre e com a aliança renovada com o nosso amado Brasil.
Com gratidão por sua atenção e generosa leitura, conto com suas orações e sigo olhando firmemente para a esperança da vitória e de um Brasil mais justo, respeitoso e com oportunidades para todos.”

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo