Santiago Peña renuncia à Presidência do Paraguai em meio à crise do banco Ueno
Vice Pedro Alliana assume o governo, mas também é alvo do pedido de impeachment
Eduardo Marques
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou nesta quinta-feira (5), poucas horas depois de o Congresso abrir uma sessão extraordinária para discutir o seu impeachment. A queda do conservador tem origem na falência do banco digital Ueno, que deixou milhares de correntistas sem acesso ao próprio dinheiro e do qual o presidente já foi acionista.
Num vídeo, Peña pediu perdão aos paraguaios. “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, disse. Ele afirmou que decidiu sair “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”.
Quem assume é o vice, Pedro Alliana, que também é alvo do pedido de impeachment. Peña, economista, governava desde 2023 e tinha mandato até 2028.
Um governo que ficou sem chão
O desfecho veio depressa. Na mesma manhã, todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram que votariam a favor do impeachment, e aliados do presidente passaram a cobrar a sua saída. O movimento se acelerou quando Horacio Cortes, presidente do Partido Colorado e considerado mentor político de Peña, retirou o apoio ao governo. O presidente do Congresso, Basilio Nuñez, também colorado, seguiu o mesmo caminho.
A sessão foi pedida por 35 deputados e representava apenas o primeiro passo do processo. Em plenário, a deputada de oposição Rocío Vallejo foi direta com o presidente. “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”, disse.
O que a oposição aponta
Os opositores acusam Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outras irregularidades. Também sustentam que o Banco Central paraguaio acobertou problemas no Ueno. O presidente foi acionista do grupo dono do banco até março do ano passado.
Um rombo que atingiu milhões
O Ueno pertence ao Grupo Vázquez e reunia cerca de 3 milhões de clientes. Guardava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, parte deles do Instituto de Previdência Social. O banco fechou as portas na terça-feira (3), quando o Banco Central começou o processo de liquidação. Segundo a autoridade monetária, faltava dinheiro para honrar as obrigações da instituição, por causa de empréstimos feitos a empresas ligadas ao próprio banco.
A resposta antes da renúncia
Nas redes sociais, Peña prometeu que os responsáveis responderão à Justiça, sem exceções. Em seguida, sancionou uma lei que deve acelerar a devolução do dinheiro aos clientes do Ueno. “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, declarou.
A Procuradoria pediu mandados de prisão, e executivos do banco se entregaram. O órgão acusou formalmente 27 pessoas ligadas à instituição, e a Justiça mandou bloquear os bens de todas elas.
Medo de contágio
A crise também acendeu um alerta no restante do sistema. Na quarta-feira (4), surgiram relatos de falhas nos aplicativos de outros bancos. A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) disse que as instituições trabalhavam para dar conta da enxurrada de clientes que migravam do Ueno e reforçou que o sistema continuava “operando normalmente”.
*Com informações do g1



