Redução da jornada reacende debate sobre o futuro do trabalho no Brasil
PEC que acaba com a escala 6x1 será debatida no Senado na próxima quarta-feira e coloca em pauta os impactos da jornada de 40 horas sobre produtividade, saúde mental, geração de empregos e competitividade das empresas

Fernanda Cappellesso
A discussão sobre o futuro da jornada de trabalho no Brasil ganhará um novo capítulo na próxima quarta-feira (1º), quando o Senado promoverá uma sessão de debates temáticos para analisar os impactos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019), que prevê o fim da escala 6×1. O texto, aprovado pela Câmara dos Deputados em maio, reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias consecutivos de descanso e estabelece um período de transição de 14 meses para adaptação das empresas.
A proposta chega ao Senado em meio a mudanças nas relações de trabalho, impulsionadas pelo avanço da tecnologia, pelo envelhecimento da população e pela crescente preocupação com saúde mental e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, representantes do setor produtivo alertam para possíveis impactos sobre custos operacionais, especialmente em atividades que exigem funcionamento contínuo.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 103 milhões de pessoas ocupadas. Grande parte dos trabalhadores do comércio, serviços, hotelaria, alimentação e saúde atua em escalas semelhantes ao modelo 6×1, o que explica a dimensão do debate.
A sessão temática foi convocada por meio do Requerimento nº 414/2026, apresentado pelos líderes dos blocos parlamentares Aliança, Vanguarda, Pelo Brasil e Democracia. O objetivo é reunir especialistas, empresários, trabalhadores e parlamentares antes da votação da proposta pelos senadores.
O que muda com a proposta
A PEC reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e determina dois dias consecutivos de descanso. A implementação será gradual ao longo de 14 meses.
Por alterar a Constituição Federal, o texto ainda precisa ser aprovado em dois turnos pelo Senado, com voto favorável de pelo menos 49 dos 81 parlamentares. Caso sofra alterações, retornará para nova análise da Câmara dos Deputados.
Enquanto isso, permanecem em vigor as regras atuais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Especialista pede equilíbrio
Para o advogado especialista em Direito do Trabalho Avelar Monteiro, a proposta representa uma das discussões mais relevantes das últimas décadas nas relações trabalhistas.
“A redução da jornada precisa ser analisada de forma técnica. Existem benefícios para a saúde e para a qualidade de vida do trabalhador, mas também desafios relacionados aos custos, à reorganização das escalas e à competitividade das empresas. O equilíbrio será fundamental para que a mudança produza resultados positivos”, afirmou Avelar Monteiro ao Diário de Aparecida.
Segundo o especialista, a previsão de implementação gradual permite que empresas adaptem seus processos sem comprometer a continuidade das atividades. “A transição prevista na PEC cria condições para que empregadores reorganizem equipes, revisem contratos e ajustem sua operação antes da entrada definitiva das novas regras”, explicou ao Diário de Aparecida.
Descanso também é questão de saúde
Para a psicóloga Nathalia Lorine, o debate vai além das relações de trabalho e alcança diretamente a saúde física e mental da população. “O descanso é indispensável para que o cérebro e o corpo recuperem energia após longos períodos de esforço. Sem esse tempo de recuperação, aumentam os níveis de estresse, ansiedade, irritabilidade e esgotamento emocional, comprometendo tanto a vida pessoal quanto o desempenho profissional”, explicou Nathalia Lorine ao Diário de Aparecida.
Segundo a especialista, ambientes de trabalho que favorecem o equilíbrio entre produtividade e qualidade de vida costumam registrar menor índice de afastamentos e maior engajamento das equipes. “Descansar não significa produzir menos. Pelo contrário. Um trabalhador descansado tende a apresentar melhor capacidade de concentração, mais criatividade, menos erros e maior eficiência nas atividades diárias”, afirmou ao Diário de Aparecida.



