STF vê risco de fuga e retém passaporte de investigado em esquema que mirava Banco Central e jornalistas
Decisão do ministro André Mendonça amplia cerco da Operação Compliance Zero, que apura suposta rede de monitoramento, produção de dossiês e ataques contra autoridades e profissionais da imprensa
Fernanda Cappellesso
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de determinar a apreensão do passaporte do publicitário Thiago Miranda elevou a tensão em uma das investigações mais sensíveis conduzidas atualmente pela Polícia Federal. A medida foi tomada após a corporação apontar risco concreto de fuga do investigado, que teria uma viagem programada para os Estados Unidos nos próximos dias.
Thiago Miranda é um dos alvos da décima fase da Operação Compliance Zero. Segundo a Polícia Federal, ele é investigado por atuar como articulador de uma estrutura que teria produzido dossiês, monitorado ilegalmente pessoas ligadas a autoridades públicas e coordenado ações voltadas à descredibilização do Banco Central e à intimidação de jornalistas. As suspeitas também incluem tentativas de interferência em investigações e campanhas de influência nas redes sociais. A defesa nega qualquer irregularidade e afirma que o publicitário sempre colaborou com as autoridades.
As investigações apontam que Miranda mantinha ligação com o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Conforme os investigadores, ele teria atuado como intermediário entre o banqueiro e influenciadores digitais contratados para participar de uma estratégia de comunicação durante a crise envolvendo a instituição financeira. Em depoimento, o publicitário afirmou que a atuação fazia parte de uma “gestão de crise”, versão contestada pela linha investigativa da Polícia Federal.
A apreensão do passaporte foi determinada como medida cautelar para impedir que o investigado deixe o país enquanto o inquérito avança. A decisão ocorre poucos dias após o cumprimento de mandados de busca e apreensão na nova fase da operação, considerada uma das mais relevantes da investigação sobre o chamado Caso Master.
Correlata
Investigação alcança relações políticas e estratégia digital
Outro ponto investigado pela Polícia Federal envolve a aproximação de Thiago Miranda com integrantes do meio político. Segundo a investigação, ele participou da aproximação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro no fim de 2024 e também teria intermediado tratativas relacionadas ao financiamento de um projeto audiovisual sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Diálogos analisados pela PF indicam ainda contatos para cobrança de pagamentos e organização de encontros entre os envolvidos.
A defesa sustenta que não houve prática criminosa e afirma que a existência de investigação não significa culpa. Os advogados também argumentam que Thiago Miranda sempre respeitou as instituições, colaborou com os investigadores e exercerá plenamente o direito ao contraditório e à ampla defesa. Enquanto isso, a Polícia Federal continua analisando celulares, documentos e demais materiais apreendidos para esclarecer a extensão da suposta organização investigada.



