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Por que Michel Temer voltou a falar em pacto nacional quase dez anos depois

Às vésperas da eleição de 2026, ex-presidente reaparece no debate público defendendo diálogo institucional e programas de governo em vez da polarização política

Fernanda Cappellesso

Quase dez anos depois de assumir a Presidência da República em meio a uma das maiores crises políticas da história recente do Brasil, Michel Temer (MDB) voltou a ocupar espaço no debate nacional. Desta vez, não como candidato nem articulador eleitoral, mas como defensor de uma agenda baseada na reconstrução do diálogo institucional e na elaboração de propostas para o próximo governo.

O movimento ganhou força após entrevista concedida ao Estadão, na qual o ex-presidente apresentou o documento Estrada para o Futuro, encaminhado aos principais presidenciáveis. Mais do que um conjunto de propostas, o texto representa uma tentativa de recolocar no centro da campanha temas como responsabilidade fiscal, segurança pública, educação e estabilidade institucional, em substituição ao ambiente de polarização que domina a política brasileira há quase uma década.

O retorno de Temer acontece em um contexto muito diferente daquele vivido em 2016. Naquele momento, o país enfrentava recessão econômica, crise fiscal e o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Hoje, embora a economia apresente outro cenário, a fragmentação política continua sendo apontada como um dos principais obstáculos à construção de consensos em temas estratégicos.

Nesse ambiente, o ex-presidente procura recuperar uma característica que marcou sua trajetória política: a defesa da negociação como instrumento para garantir governabilidade.

Da Ponte para a Estrada

O novo documento apresentado por Temer também carrega um simbolismo político. Há dez anos, ainda como vice-presidente, ele participou da elaboração da Ponte para o Futuro, texto que serviu como referência para diversas medidas econômicas adotadas durante sua gestão.

Agora, a proposta denominada Estrada para o Futuro procura atualizar aquele debate para os desafios de 2026. Em vez de apresentar um plano de governo próprio, Temer afirma defender uma agenda que possa servir como referência para qualquer candidato comprometido com estabilidade econômica, responsabilidade fiscal e fortalecimento das instituições.

Entre as sugestões está a realização de um pacto nacional logo no início do próximo mandato presidencial. A ideia é reunir representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de governadores, entidades da sociedade civil e até integrantes da oposição, para construir uma agenda mínima de interesse nacional.

Na avaliação do ex-presidente, a sociedade demonstra cansaço diante do ambiente permanente de confronto político e espera que a disputa eleitoral volte a priorizar projetos capazes de enfrentar problemas históricos do país, como crescimento econômico, segurança pública, educação e equilíbrio das contas públicas.

O centro do debate

Embora tenha descartado participação direta na campanha presidencial, Temer demonstra interesse em influenciar o debate político por meio de ideias. Ao distribuir seu documento aos presidenciáveis, procura ocupar o papel de formulador de propostas em um momento em que diferentes forças políticas buscam construir alternativas à polarização.

Durante a entrevista ao Estadão, o ex-presidente também voltou a defender o cumprimento rigoroso da Constituição como mecanismo para preservar a harmonia entre os Poderes e reduzir conflitos institucionais. Para ele, divergências fazem parte da democracia, mas precisam ocorrer dentro dos limites estabelecidos pelas instituições.

Outro ponto destacado foi a necessidade de fortalecer a cooperação entre os órgãos responsáveis pelo combate ao crime organizado, inclusive em nível internacional. Temer defendeu que problemas transnacionais sejam enfrentados por meio da integração entre serviços de inteligência, em vez de disputas diplomáticas.

Mais do que lançar um documento, Temer parece tentar recolocar em discussão uma pergunta que deverá acompanhar toda a campanha presidencial de 2026: depois de anos marcados por disputas personalizadas, haverá espaço para uma eleição centrada em programas de governo?

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