GoiásNotíciasPolítica

Associação das Vítimas do Césio-137 apoia criação de memorial, mas aponta desafios

Matéria foi aprovada em definitivo e agora depende da análise do prefeito Sandro Mabel

A Associação das Vítimas do Césio-137 avalia como positiva a aprovação, pela Câmara Municipal de Goiânia, do projeto que prevê a criação de um Museu e Memorial. A proposta, de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza), foi aprovada em definitivo nesta terça-feira (11) e agora segue para análise do prefeito Sandro Mabel (União Brasil).

O projeto tem como objetivo preservar a memória histórica e cultural do acidente radiológico na capital, ocorrido em setembro de 1987, considerado o maior ocorrido em área urbana do mundo. A proposta prevê a criação de um espaço dedicado às vítimas diretas e indiretas da tragédia, além de promover a conscientização sobre os impactos sociais, culturais e sanitários provocados pela exposição ao Césio-137.

Para Marcelo Santos Neves, representante da associação, a criação do memorial representa uma medida de reparação, ainda que tardia. Segundo ele, o espaço será importante não apenas para preservar a história do acidente, mas também para dar visibilidade às pessoas que ainda enfrentam consequências relacionadas à exposição à radiação.

“Essa é uma medida de reparação, ainda que tardia, mas extremamente necessária”, afirmou Marcelo ao Diário de Aparecida.

De acordo com o representante, ao longo dos anos houve iniciativas que contribuíram para apagar ou diminuir a memória das vítimas do acidente. Ele citou como exemplo a alteração dos nomes de ruas que ficaram relacionadas ao episódio, entre elas as ruas 57, 26A, onde funcionava o Ferro-Aço, e 30B.

Marcelo também destacou que as vítimas permaneceram durante oito anos sem reajuste nos benefícios. Segundo ele, a atualização ocorreu somente durante a atual gestão do governador Ronaldo Caiado (PSD).

Na avaliação do representante da associação, a construção de um memorial deveria ter ocorrido há décadas. Ele comparou a situação de Goiânia com outros episódios de grande impacto social que tiveram a memória preservada por meio de espaços específicos, como o rompimento da barragem de Brumadinho e o Holocausto.

Além da preservação histórica, Marcelo ressaltou que o memorial poderá ajudar a evidenciar que as consequências do acidente ainda fazem parte da realidade de algumas vítimas. Segundo ele, há pessoas que continuam enfrentando problemas de saúde relacionados à exposição à radiação.

O representante citou casos de vítimas que permanecem com feridas abertas décadas após o acidente, além de pacientes que enfrentam complicações oncológicas e podem precisar passar por novas amputações. “O espaço não servirá apenas para preservar a história, mas para evidenciar que ainda há muitas pessoas sofrendo”, afirmou.

Após a aprovação do projeto pela Câmara, a expectativa da associação está voltada para a decisão do prefeito Sandro Mabel. A entidade espera que o chefe do Executivo municipal sancione a proposta. “Esperamos, agora, que o prefeito Sandro Mabel não vete esta proposta”, afirmou Marcelo.

Projeto

Um dos locais considerados para a construção do memorial é um antigo ferro-velho no Setor Aeroporto, onde ocorreu parte da contaminação provocada pelo Césio-137. O local foi um dos pontos centrais do acidente de 1987, após a cápsula com material radioativo ser retirada de um aparelho de radioterapia abandonado e levada para um ferro-velho.

O projeto foi considerado de importância pelos parlamentares para a preservação da história e para a conscientização da população goianiense. Também visa a trazer ainda mais valor simbólico ao maior acidente radiológico da história, fora de uma usina nuclear. Segundo o vereador Lucas Kitão, o Museu e Memorial é justamente para dar esse reconhecimento ao evento histórico, com uma área, um local de exposição e espaço de homenagem e preservação histórica deste evento.

“A cidade de Goiânia tem em sua linha do tempo o maior acidente radiológico do mundo. Está em nossa história e deixou um legado de dor, estigmatização e desinformação, mas também revelou a solidariedade de profissionais de saúde, bombeiros, militares e cidadãos que atuaram heroicamente no socorro às vítimas”, justificou o autor da matéria.

O autor lembra ainda que seu projeto antecede o sucesso da série “Emergência Radioativa”, da Netflix, que abordou o episódio radiológico, mas teve praticamente todas as gravações realizadas no estado de São Paulo, não reconhecendo a capital goiana.

 

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo