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Maestro goiano revela pressão e sofrimento de cantores famosos nos bastidores

Cláudio Elísio relata casos de artistas que enfrentam exaustão vocal, medo de falhar e insegurança mesmo após conquistar o sucesso

O público vê os shows, acompanha os sucessos e aplaude seus artistas preferidos. Mas, longe dos palcos, alguns cantores enfrentam uma realidade pouco conhecida: a pressão para manter a voz, o medo de falhar durante uma apresentação e o desgaste físico provocado pela rotina profissional. Em determinadas situações, a cobrança ultrapassa a técnica e afeta a confiança do artista na própria capacidade.

Em entrevista concedida à jornalista Fernanda Cappellesso, do Diário de Aparecida, o maestro e preparador vocal goiano Cláudio Elísio revelou situações que mostram como a fama não impede o surgimento de dificuldades vocais e inseguranças.

Com experiência na preparação de artistas como Marcelo Martins, Fred & Fabrício, Henrique & Diego, Mariano e integrantes da banda Malta, Cláudio afirma que alguns profissionais procuram ajuda quando já enfrentam limitações para cumprir a rotina de apresentações.

“Tem cantor que me procura porque eles estão cansados, eles já estão sentindo fadiga crônica”, relatou.

Segundo o maestro, parte dos problemas surge porque o cantor desenvolve a carreira com base na intuição, sem compreender completamente os mecanismos necessários para produzir determinados sons. Quando a voz deixa de responder como antes, a situação pode provocar insegurança.

Para Cláudio, o problema não está apenas em alcançar notas difíceis, mas em conseguir repetir o desempenho ao longo de uma agenda de shows sem exigir esforço desnecessário.

Cantor enfrentava dificuldades sem que o público soubesse

Entre os casos relatados pelo preparador vocal está o de Luiz Cláudio, da dupla Luiz Cláudio & Juliano.

Segundo o maestro, o artista apresentava dificuldades para manter a resistência vocal entre apresentações.

“Ele estava tendo algumas dificuldades em relação à manutenção da sua voz”, contou.

Cláudio explicou que o cantor se cansava rapidamente e, em algumas ocasiões, já apresentava dificuldades no dia seguinte a um show.

O público, entretanto, não percebia o problema.

O episódio ilustra uma situação enfrentada por profissionais cuja principal ferramenta de trabalho depende de condições físicas que podem variar de um dia para o outro.

Segundo o maestro, a técnica utilizada aos 20 anos pode não apresentar a mesma eficiência aos 40, 50 ou 60. Com o passar do tempo, o artista precisa adaptar a maneira de cantar para manter o desempenho.

“Porque a voz, ela é um instrumento de manutenção contínua”, afirmou.

A necessidade de acompanhamento também envolve mudanças de repertório, gravações e preparação para apresentações de longa duração.

A cobrança pode transformar o talento em insegurança

Cláudio explica que o sofrimento relacionado ao desempenho não atinge apenas artistas que enfrentam dificuldades físicas. A maneira como o cantor percebe a própria voz também interfere no processo.

Segundo ele, alguns profissionais chegam às aulas depois de experiências negativas com outros professores, críticas ou tentativas frustradas de melhorar a técnica.

Em determinados casos, o medo de errar impede o artista de experimentar novas formas de emissão vocal.

O preparador afirma que conhecer as próprias características ajuda a reduzir essa insegurança.

“Eu sou um tipo de professor que eu gosto que o aluno aprenda a gostar da própria voz”, declarou.

Para ele, o treinamento não deve transformar todos os cantores em intérpretes com características semelhantes. O objetivo é preservar a identidade vocal e desenvolver recursos que permitam cantar com mais controle.

Cláudio também critica a tentativa de confundir potência com esforço.

Na avaliação do maestro, um cantor pode produzir grande volume sonoro e, ainda assim, utilizar tensão desnecessária, o que aumenta a possibilidade de cansaço.

O problema se torna mais relevante quando o profissional enfrenta apresentações consecutivas.

Até cantores consagrados precisam continuar estudando

Para explicar as exigências da profissão, Cláudio compara o cantor a um atleta.

“O cantor é um atleta. Só que da voz, e todo atleta precisa de um treinador”, afirmou.

Segundo ele, músicos podem permanecer duas, três ou quatro horas no palco e precisam preparar a voz para suportar essa demanda.

A preparação profissional não envolve apenas a correção de desafinações. Inclui respiração, controle de timbre, resistência, extensão vocal e interpretação.

Mesmo artistas experientes precisam revisar esses aspectos ao longo da carreira.

O maestro também relata que alguns profissionais resistem a reconhecer publicamente a importância das aulas de canto.

Em um dos episódios, um artista que havia recebido treinamento negou, durante uma entrevista, ter estudado técnica vocal.

“Eu nunca exigi de aluno nenhum meu falar o meu nome. Nunca. Nunca cobrei”, afirmou.

Segundo Cláudio, o episódio demonstra como a necessidade de parecer naturalmente talentoso pode influenciar o comportamento de alguns profissionais.

Ele não revelou a identidade do cantor.

Leia mais: Marcelo Martins: o pai do funknejo por trás de sucessos do sertanejo romântico.

Saúde vocal exige atenção além dos palcos

O desgaste relatado pelo maestro também representa uma questão de saúde ocupacional.

De acordo com o Ministério da Saúde, cantores, professores, radialistas e outros profissionais que utilizam a voz como ferramenta de trabalho precisam de cuidados específicos.

A campanha nacional de conscientização de 2026 destacou que alterações vocais persistentes, como rouquidão, dor, cansaço e falhas na voz, merecem avaliação profissional.

A pasta também informa que aproximadamente 20% da população apresenta algum tipo de alteração nas pregas vocais, com predominância de condições benignas. Esse dado se refere à população em geral, não especificamente aos cantores.

Essas recomendações reforçam a importância de diferenciar treinamento musical de acompanhamento clínico. O preparador vocal atua no aperfeiçoamento da técnica; alterações persistentes precisam ser avaliadas por profissionais de saúde.

Maestro enfrentou gagueira, críticas e insegurança antes da fama

A relação entre cobrança, sofrimento e desempenho musical também faz parte da história pessoal de Cláudio Elísio.

Criado em Pirenópolis, pela mãe e pela avó, o maestro convive com a gagueira desde a infância. As dificuldades de comunicação afetaram sua confiança e acompanharam os primeiros contatos com a música.

“Desde criança eu sofro com a gagueira, então eu sempre tive uma dificuldade de comunicação, e isso afetava profundamente a minha segurança”, contou.

O interesse pelo canto surgiu por volta dos 15 ou 16 anos, quando começou a participar das atividades musicais de uma igreja evangélica.

Na época, também enfrentava problemas de afinação.

Segundo Cláudio, alguns colegas faziam críticas diretas à sua capacidade musical.

“Nossa, mas você é ruim, hein? Você é ruim demais”, recordou.

As observações despertaram nele a necessidade de provar que conseguia cantar.

“Eu sempre treinava, cantava, gritava, tentava alcançar os tons mais altos, ou fazer um timbre rasgado, ou ter um timbre forte”, relatou.

O maestro reconhece que a busca por aprovação influenciou sua dedicação aos estudos.

A professora Maria Ângela teve papel importante no processo ao ajudá-lo a desenvolver a percepção das notas musicais.

Antes de consolidar a carreira, Cláudio trabalhou como ajudante de pedreiro, serralheiro e gesseiro, vendedor de motos, colchões e consórcios, além de funcionário de lan house e empacotador.

O primeiro dinheiro recebido com música veio das aulas de violão ministradas a Mateus de Paula, em Pirenópolis. Ele cobrava R$ 50 mensais por duas aulas semanais.

Posteriormente, em Itaberaí, chegou a reunir mais de 60 alunos ativos.

A aproximação com artistas de projeção nacional ocorreu por meio de uma rede de indicações profissionais. Entre os primeiros nomes esteve Marcelo Martins, ex-integrante da dupla João Lucas & Marcelo, conhecido pelo sucesso “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”.

“Com certeza, a partir do Marcelo Martins ali, as coisas foram ganhando outros rumos”, afirmou.

Hoje, Cláudio utiliza a experiência acumulada para orientar profissionais e divulgar conteúdos educativos sobre técnica vocal nas redes sociais.

A história do maestro apresenta um contraste com a realidade que ele observa entre seus alunos: o profissional que antes buscava aprovação por conseguir cantar passou a ensinar artistas a conhecer os próprios limites e a reduzir a dependência do julgamento alheio.

Leia mais: Aparecida é Show 2026 abriu espaço para cantores locais e valorização da música regional.

Fernanda Cappellesso

Olá! Sou uma jornalista com 20 anos de experiência, apaixonada pelo poder transformador da comunicação. Atuando como publicitária e assessora de imprensa, tenho dedicado minha carreira a conectar histórias e pessoas, abordando temas que vão desde política e cultura até o fascinante mundo do turismo.

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