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Goiânia terá Memorial e Museu do Césio-137 após lei sancionada por Sandro Mabel

Proposta foi aprovada por unanimidade pelos vereadores

Eduardo Marques

A Prefeitura de Goiânia sancionou a Lei 11.692/2026, que institui a criação do Memorial e Museu do Césio-137 na Capital. De autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza), o projeto foi aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal na primeira sessão do semestre legislativo, sancionado pelo prefeito Sandro Mabel (União Brasil) e publicado no Diário Oficial do Município (DOM) desta quinta-feira (27).

A medida chega às vésperas de o acidente radiológico completar 39 anos. O episódio, oorrido em 13 de setembro de 1987, é considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, e sua lembrança, segundo os parlamentares, carrega um forte peso social e histórico para a cidade.

O que aconteceu em 1987

A tragédia começou com o manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado, que pertencia ao extinto Instituto Goiano de Radioterapia. A peça, contendo uma cápsula de 19 gramas de Césio-137, acabou parando em um ferro-velho na região Central de Goiânia, onde foi manipulada sem qualquer cuidado. O contágio radioativo, direto e indireto, atingiu mais de mil pessoas, e quatro delas morreram após o contato com a substância.

Um espaço para memória e reparação

Para o vereador Lucas Kitão, autor da lei, o Memorial e Museu nasce como forma de preservar a história do acidente e reforçar a conscientização da população goianiense. Segundo ele, o espaço servirá para reconhecer o trabalho de profissionais que atuaram no socorro às vítimas, homenagear quem perdeu a vida e valorizar a memória da Capital.

O parlamentar afirma que vai atuar para que a implementação do espaço aconteça o quanto antes. Embora a lei não determine um endereço específico — coube ao Paço Municipal essa definição —, Kitão não esconde a preferência pela região Central, onde o acidente de fato ocorreu. A ideia, segundo ele, é que o local reúna também uma área de convivência e cumpra função educativa, recebendo escolas, universidades e visitantes.

A referência, conta o vereador, vem de fora do Brasil: “Nossa ideia é ter um local em Goiânia, assim como existe em Nova York, nos Estados Unidos, no Museu e Memorial do World Trade Center. O local preserva a história e a memória das vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001. É importante termos esse mesmo espaço aqui, na Capital, e preservamos ainda mais o Centro de Ciências Nucleares”, explicou.

Kitão destaca ainda que sua proposta é anterior a série “Emergência Radioativa”, da Netflix, que retratou o acidente, mas concentrou boa parte das gravações em São Paulo — o que, para o vereador, deixou de dar à capital goiana o reconhecimento devido pela própria história. Para ele, o museu é uma forma de devolver esse protagonismo a Goiânia.

“A cidade de Goiânia tem em sua linha do tempo o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear. Está em nossa história e deixou um legado de dor, estigmatização e desinformação, mas também revelou a solidariedade de profissionais de saúde, bombeiros, militares e cidadãos que atuaram heroicamente no socorro às vítimas”, pontuou o vereador.

Vítimas veem a lei como reparação tardia

A Associação das Vítimas do Césio-137 recebeu a aprovação do projeto com otimismo. Para Marcelo Santos Neves, representante da entidade, a criação do memorial é uma medida de reparação — ainda que, em sua avaliação, tardia. Segundo ele, o espaço não deve apenas contar a história do acidente, mas também dar visibilidade a quem, décadas depois, continua convivendo com as consequências da exposição à radiação.

Marcelo lembra que, ao longo dos anos, iniciativas diversas contribuíram para apagar ou diminuir a memória das vítimas na cidade, como a alteração dos nomes de ruas ligadas ao episódio — entre elas as ruas 57, 26A, onde funcionava o Ferro-Aço, e 30B. Ele também aponta que as vítimas passaram oito anos sem qualquer reajuste em seus benefícios, situação revertida apenas durante a atual gestão do governador Ronaldo Caiado (PSD).

Na avaliação do representante, um espaço como esse deveria existir há décadas. A comparação que ele faz é com outros episódios de grande impacto social que ganharam locais próprios de memória, como o rompimento da barragem de Brumadinho e o Holocausto.

Mais do que preservar o passado, Marcelo reforça que o memorial pode ajudar a mostrar que o sofrimento de parte das vítimas continua no presente. Segundo ele, há pessoas que ainda vivem com feridas abertas, décadas após o contato com a radiação, além de pacientes que enfrentam complicações oncológicas e podem precisar passar por novas amputações.

“O espaço não servirá apenas para preservar a história, mas para evidenciar que ainda há muitas pessoas sofrendo”, afirmou Marcelo Santos Neves ao Diário de Aparecida.

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