Relatório da PF aponta indícios de ao menos seis encontros entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes
Documento de 218 páginas, com sigilo suspenso nesta terça-feira, detalha mensagens trocadas pelo banqueiro do Banco Master e reconstrói cronologia de reuniões com o ministro do STF entre novembro de 2024 e agosto de 2025

Eduardo Marques
Um relatório da Polícia Federal (PF) identificou indícios de ao menos seis encontros entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ocorridos entre novembro de 2024 e agosto de 2025. O documento, produzido a partir da análise de mensagens extraídas do celular do banqueiro, teve o sigilo suspenso nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
Uma relação que remonta a 2022
Segundo a FolhaPress, o primeiro registro do nome do ministro no celular de Vorcaro data de 2022, em documentos preparatórios para a Lide Brazil Conference, realizada em novembro daquele ano — evento que, segundo apurado, reuniu seis magistrados do STF, incluindo Moraes, e foi organizado pelo filho do ex-governador paulista João Doria (PSDB). Já o contato telefônico do ministro está salvo na agenda do banqueiro desde 26 de dezembro de 2023.
De acordo com outra apuração, as primeiras reuniões presenciais entre os dois teriam ocorrido ainda no fim de 2023, intermediadas pelo ex-deputado e ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria, com uma segunda reunião realizada cinco dias após a primeira, no mesmo endereço.
Encontros marcados e confirmados por mensagens
O relatório reconstitui boa parte da rotina de contatos a partir de conversas do banqueiro com terceiros. Em 15 de novembro de 2024, Vorcaro disse à filha, Stella, que estava “com Alexandre Moraes” — o primeiro registro de um encontro entre os dois reunido pela corporação. Antes disso, Fábio Faria aparece nas mensagens intermediando os contatos: disse ao banqueiro que iria remarcar com o ministro, pediu o endereço da residência de Vorcaro para repassá-lo e transmitiu uma proposta de horário para o encontro.
Um dos episódios mais detalhados no relatório teria ocorrido em março de 2025. De acordo com a Polícia Federal, um funcionário de Vorcaro em Brasília avisou, por volta das 20h23 do dia 19 de março, que o ministro havia chegado; minutos depois, o banqueiro confirmou a um diretor do Banco Central que estava reunido com Moraes.
Já de madrugada, questionado pela então namorada Martha Graeff sobre quem estava com ele, Vorcaro respondeu que “Hugo e Ciro” tinham chegado para falar com “Alexandre” — numa possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta, e ao senador Ciro Nogueira. Segundo a apuração, o encontro pode ter se estendido das 20h23 até pelo menos 0h32.
Outras trocas de mensagens indicam encontros em datas subsequentes. Em 19 de abril de 2025, Vorcaro disse a Martha Graeff que estava indo encontrar o ministro perto de casa; questionado se Moraes estaria em Campos do Jordão, respondeu que ele passava o feriado no local. Em 29 de abril, após inicialmente dizer que estava com “Alexandre” e depois corrigir para “em casa”, Vorcaro confirmou a Martha, em nova pergunta dela sobre quem estava com ele, que se tratava de “alexandre moraes”.
Fábio Faria e a logística dos encontros
As mensagens atribuídas a Fábio Faria mostram um papel de intermediação recorrente. Em determinado momento, Vorcaro questionou sobre o procedimento para acessar a garagem de um endereço; cerca de uma hora depois, Faria compartilhou com o banqueiro o contato salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”, que Vorcaro registrou em sua agenda poucos segundos após recebê-lo.
Em outra ocasião, Faria avisou que “Alex” queria almoçar em determinado local, ao que Vorcaro respondeu enviando a localização de um hotel em Campos do Jordão e o contato de uma funcionária do estabelecimento. O próprio relatório da PF registra que o nome “Alex”, nessas trocas, refere-se muito provavelmente ao ministro. Fábio Faria, segundo as reportagens, não é investigado no caso.
Contrato com o escritório da esposa do ministro
Um dos pontos que ganhou destaque nas coberturas é a proximidade temporal entre os encontros e um contrato comercial. A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, teria assinado contrato de R$ 131 mi de seu escritório com o Banco Master poucos dias após dois encontros presenciais entre Vorcaro e Moraes, conforme consta do relatório enviado a André Mendonça.
O contexto do caso
As investigações têm como pano de fundo a crise do Banco Master, instituição que Vorcaro comandava e que está no centro de um rombo estimado em cerca de R$ 50 bilhões. O material que embasa o relatório foi obtido a partir da apreensão do celular do banqueiro, realizada em novembro de 2025, e as conversas contam também com trocas entre Vorcaro e sua ex-namorada, Martha Graeff, nas quais o nome do ministro aparece em diversas ocasiões.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, já havia pedido ao STF a abertura de uma investigação para apurar a origem de vazamentos de dados sigilosos extraídos dos celulares apreendidos, argumentando que o espelhamento das informações só foi entregue formalmente à defesa em março.
Em nota enviada à CNN Brasil, o empresário Fábio Faria afirma que “sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo”. Faria disse ainda que “não se reuniu em nenhum momento com a banca e sequer tomou conhecimento dos valores contratados entre as partes”.
O Diário de Aparecida não localizou a defesa de Alexandre de Moraes, mas esclarece que o espaço permanece aberto para manifestações, caso haja interesse.



