Eduardo Marques
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou ter se encontrado, em março de 2025, com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, para tratar de um processo sobre precatórios de interesse da instituição financeira. A confirmação veio em nota divulgada pelo gabinete do magistrado nesta quarta-feira (2), depois que mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro revelaram a existência do encontro, mantido em sigilo até então.
De acordo com o comunicado, Mendonça recebeu o banqueiro uma única vez, por iniciativa do próprio empresário, e se limitou a ouvi-lo. Segundo a versão do ministro, o assunto tratado foi exclusivamente a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, ação que discutia créditos de precatórios de interesse do Master e que, à época do encontro, estava sob pedido de vista de outro ministro da Corte. O gabinete afirmou ainda que, no mesmo mês, Mendonça recebeu também o advogado de Vorcaro para tratar do mesmo tema, e que os memoriais entregues nas duas ocasiões seguem arquivados no gabinete.
A reportagem que revelou o encontro, assinada pelo jornalista Paulo Motoryn e publicada na newsletter Noites Húngaras, mostra que a aproximação entre o banqueiro e o ministro foi articulada ao longo de semanas por um advogado e um deputado, e que a reunião ocorreu no Instituto ITER, em São Paulo, com duração de cerca de duas horas. Um dos interlocutores chegou a comentar, em conversa registrada nas mensagens, ter acompanhado o ministro a uma alfaiataria carioca durante o período de aproximação.
Um documento obtido pelo Metrópoles reforça a versão apresentada pelo ministro: um memorial assinado pelo advogado Wilson Ramalho Cavalcanti Neto, em nome da usina Agro Industrial Tabu, chegou ao gabinete de Mendonça três dias depois da data do encontro em São Paulo, pedindo que o ministro rejeitasse a suspensão do precatório movida pela União. Segundo o Metrópoles, Vorcaro fez uma espécie de peregrinação por gabinetes do STF para tratar do assunto, tendo procurado também o ministro Gilmar Mendes, que da mesma forma não atendeu ao pedido do banqueiro.
Questionado sobre o teor dos áudios e das mensagens trocadas entre os articuladores da aproximação, o gabinete de Mendonça evitou comentar as conversas. Segundo a assessoria do ministro, ele não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar, e reafirmou que sua atuação no processo é pautada pela legalidade e pela impessoalidade. O gabinete destacou ainda que a decisão de Mendonça na STP 976 foi contrária aos interesses do empresário, em linha com posições que o ministro já havia adotado em casos semelhantes.
O episódio ganha relevância adicional por se somar a uma sequência de fatos que já colocam Mendonça sob escrutínio. Meses depois do encontro relatado, o ministro assumiu a relatoria do inquérito que apura fraudes no Banco Master no STF, substituindo Dias Toffoli. A investigação decorre da crise que levou o Banco Central a decretar, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial da instituição, após a Polícia Federal deflagrar a Operação Compliance Zero e prender Vorcaro sob suspeita de fabricação de créditos falsos. O colapso do Master resultou no maior ressarcimento da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC): cerca de R$ 41 bilhões devolvidos a aproximadamente 1,6 milhão de credores.
Os precatórios citados no episódio são créditos judiciais que o poder público deve pagar a credores, mas cujo desembolso costuma se arrastar por anos. No mercado financeiro, esses títulos são comprados com desconto por instituições que apostam em lucrar quando o Estado finalmente quitar a dívida — prática que, segundo investigadores, esteve no centro do modelo de captação de recursos do Banco Master.
Fissura no STF
A revelação do encontro com Vorcaro ocorre um dia depois de outro episódio ter aberto uma crise sem precedentes dentro do STF: a divulgação de um relatório da Polícia Federal que aponta trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro.
Segundo apurou a coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, no diálogo revelado pela PF, Vorcaro pede a Moraes “proteção” em relação ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues.
O nome de Moraes só veio à tona porque Mendonça, na condição de relator do inquérito sobre o Master, havia determinado à PF que identificasse o interlocutor de Vorcaro naquela conversa — o que levou Moraes a acusar o colega de direcionar as investigações contra ele.
Como a apuração de um ministro do Supremo exige a concordância de todos os integrantes da Corte, caberá ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, decidir se o caso irá a plenário. Mendonça já indicou que essa é sua preferência, defendendo que a discussão ocorra “de forma pública e transparente, em sessão presencial do colegiado”.
O procurador-geral Paulo Gonet, por sua vez, já se manifestou pela nulidade do relatório, sustentando que Mendonça deveria ter levado o caso ao plenário antes de solicitar à PF a identificação do interlocutor de Vorcaro.
Leia a nota de Mendonça na íntegra
O gabinete do ministro enviou a seguinte nota:
“Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.
Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.
Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.
Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.”



