
Eduardo Marques
Goiânia fechou o mês de agosto com um recorde que resume bem o que o goianiense vem sentindo nas últimas semanas: nesta segunda-feira (31), o termômetro chegou a 39,7ºC às 15h, a maior temperatura já registrada para o mês desde que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) começou a monitorar a capital. A marca superou os 38,3ºC anotados no dia 10 de agosto — recorde que, até então, parecia difícil de bater.
A boa notícia é que o tempo começou a mudar — e mais rápido do que os próprios meteorologistas previam. De acordo com Elizabeth Alves Ferreira, coordenadora do Inmet em Goiás e Tocantins, um sistema frontal que só deveria chegar ao estado na quarta-feira (2) se antecipou e já provoca aumento de nebulosidade e de vento. Com isso, a chance de chuva — e até de granizo pontual em algumas regiões do Estado — pode se confirmar já na tarde desta terça.
O Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), vinculado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), também sinalizou esse movimento, apontando o enfraquecimento do bloqueio atmosférico que segurava o tempo seco no estado. A previsão é de pancadas isoladas no centro-sul goiano nesta terça, com um cenário ainda mais favorável para quarta-feira: a chance de chuva deve se espalhar por quase todo o território, ficando de fora apenas o extremo norte. O motor dessa mudança é um ciclone extratropical formado na costa da Região Sul, que está organizando áreas de instabilidade também no Sudeste e em parte do Centro-Oeste.
Só que quem espera um alívio duradouro pode se decepcionar. A instabilidade deve seguir firme na quarta-feira, mas a tendência é de uma pausa já na quinta (3), quando o tempo volta a secar. E, segundo a meteorologista do Inmet, essa trégua promete ser curta: uma nova frente fria já é esperada sobre Goiás no fim de semana.
O calor por si só já preocupa, mas o que mais chama atenção é a combinação com o ar seco. No mesmo horário em que os termômetros bateram recorde, a umidade relativa do ar despencou para 14%, um índice bem abaixo do que órgãos de saúde consideram seguro. Para se ter ideia da gravidade da estiagem, o total de chuva acumulado em todo o mês de agosto na capital não passou de 0,6 milímetro.
Uma seca que já dura meses
Esse cenário não é exclusividade de Goiânia. Segundo o Cimehgo, até o fim de agosto as regiões Norte e Oeste do estado já somavam 81 dias seguidos sem chuva significativa. Leste e Central não ficavam muito atrás, com 80 e 78 dias, respectivamente. A única exceção é a região Sul, que recebeu alguma precipitação recentemente e amargava apenas cinco dias de estiagem.
É esse tipo de número que ajuda a explicar por que o risco de incêndio está tão alto em Goiás. O Cimehgo trabalha com um indicador batizado de “Fator 30 30 30”: quando a temperatura passa dos 30ºC, a umidade cai abaixo de 30% e os ventos ficam moderados a fortes, as condições ficam praticamente ideais para que qualquer foco de fogo se espalhe rapidamente. Nesta terça-feira (1º), 209 dos 246 municípios goianos estavam classificados em estado crítico para queimadas — um retrato e tanto da vegetação ressecada que domina o estado.
Para esta terça, o Cimehgo não trazia boas notícias no curto prazo: sol forte em todas as regiões, temperaturas em alta e umidade em queda ao longo da tarde, com risco de tempestade praticamente zerado em todo o território. As máximas previstas iam de 37ºC, no Leste e em Goiânia, a até 40ºC no Norte e no Oeste do estado.
Setembro não promete alívio rápido
Olhando para o mês como um todo, o prognóstico do Cimehgo mostra um cenário de transição — mas sem pressa. Setembro deve seguir marcado por calor intenso, umidade baixa e risco elevado de incêndios, mesmo com a possibilidade de pancadas isoladas aqui e ali. E quando a chuva chegar, tende a ser desigual: eventos pontuais, de curta duração, puxados principalmente pela passagem ocasional de frentes frias vindas do Centro-Sul do país. Na prática, isso significa que a chuva em um município não garante que a cidade vizinha também será beneficiada.
Enquanto essa transição não se consolida, a orientação continua a mesma de sempre nesses períodos críticos: manter a hidratação em dia, evitar ficar exposto ao sol nos horários mais quentes e redobrar o cuidado com qualquer uso de fogo, seja na cidade ou no campo — o risco de incêndio florestal segue alto em praticamente todo o estado.



