Eduardo Marques
Figuras ligadas ao bolsonarismo acumularam 61 registros de ataques, ofensas, campanhas de desqualificação e episódios de hostilidade contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e integrantes da hierarquia católica entre 2018 e 2026. É o que mostra um relatório da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP). Parte dos casos partiu diretamente da família Bolsonaro. Em um recorte restrito, o documento atribui quatro episódios a Jair (PL), Eduardo (PL) ou Flávio (PL). Dois são do ex-presidente. Um é de Eduardo e outro de Flávio. O mais recente ocorreu em plena campanha de 2026 e reacendeu o debate sobre religião e política.
Em 27 de setembro, em carreata em Goiânia, Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, acusou integrantes da CNBB de ajudar a espalhar a informação de que pretendia tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
“O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu com ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente, essa é a realidade”, disse. Ele não apresentou nomes nem provas. A fala foi gravada e publicada nas redes.
A CNBB respondeu com nota oficial. Afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”. Disse ainda que não integra estruturas político-partidárias. Encerrou o texto com uma frase. “A mentira não se combate com outra mentira.”
A Fórum publicou também que JB Carvalho, fundador da igreja frequentada por Flávio, escreveu contra a lei que reconhece Nossa Senhora Aparecida como Padroeira. Flávio e a mulher, Fernanda, foram batizados na Comunidade das Nações, criada pelo religioso.
Jair chamou a CNBB de “hiena” em post presidencial
Em 28 de outubro de 2019, já na Presidência, Jair Bolsonaro apareceu em vídeo no perfil oficial como um leão cercado de hienas. Elas representavam Supremo Tribunal Federal (STF), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Organização Nacional das Nações Unidas (ONU), partidos, imprensa e a própria CNBB. A Folha guardou um print. A postagem foi apagada em poucas horas.
No dia seguinte, ele admitiu o erro e pediu desculpas. Assumiu a autoria, embora tenha sido questionado sobre uma possível participação de Carlos Bolsonaro. O próprio Carlos disse que o vídeo fora publicado por Jair.
Eduardo falou em infiltração da esquerda
Em 24 de junho de 2019, Eduardo Bolsonaro escreveu no X. “Não se engane. A esquerda já se infiltrou na religião católica, principalmente através da CNBB.” O então deputado disse temer que o mesmo ocorresse entre os evangélicos.
Jair falou em “parte podre” da Igreja
O primeiro episódio é de outubro de 2018, na campanha presidencial. Em vídeo sobre a demarcação de terras indígenas, Jair atacou a CNBB e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Chamou esses setores de “parte podre da Igreja Católica”.
O relatório aponta Jair como autor da fala. Ressalva, porém, que a cópia preservada é uma republicação posterior e que a data da gravação não foi confirmada. O registro da época está no Instituto Humanitas Unisinos, que publicou a reportagem em 17 de outubro de 2018. O Diário do Centro do Mundo também guardou o vídeo.
O que ficou fora da conta
Outros episódios ligados ao bolsonarismo não entram nos quatro casos por causa do critério estrito de autoria. Um deles é o levantamento sobre 152 bispos que haviam assinado carta crítica ao governo em 2020. Segundo relatório da Polícia Federal citado no estudo, a ação envolveu agentes da Abin e encaminhamento do Gabinete de Segurança Institucional. A investigação a chamou de “Ação Clandestina Arcebispos/Bispos”. O material não atribui a Jair a ordem.
Também ficam de fora manifestações de parlamentares, influenciadores, organizações e perfis bolsonaristas. Autoria política próxima à família não é tratada como autoria pessoal de Jair, Eduardo ou Flávio.
Sobre o estudo
O documento se intitula “Ataques à CNBB e aos seus bispos, recorrência, intimidação e disputa política”. A CBJP é ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O levantamento cobre de 2018 a 2026 e reúne cronologia, documentos institucionais e publicações preservadas das redes sociais.
O relatório faz uma ressalva. O número de URLs guardadas não equivale ao de ataques independentes. Entrevistas, republicações e comentários são separados da autoria original.
*Com informações da Revista Fórum



