
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) transformam o último debate presidencial antes do segundo turno em um confronto sobre custo de vida, políticas sociais e responsabilidades pessoais. No encontro promovido pela Globo nesta sexta-feira (23), no Rio de Janeiro, os candidatos alternam propostas com ataques. A morte da menina Ana Clara, as apostas on-line e a disputa por um imóvel adquirido pelo jogador Richarlison estão entre os assuntos abordados.
Mediado por César Tralli, o programa ocorre a dois dias da votação de domingo (25). Lula procura sustentar sua candidatura no histórico das administrações petistas. Flávio concentra críticas no endividamento e no poder de compra da população, enquanto apresenta compromissos para uma eventual gestão.
Ofensa e pedido de desculpas
Um dos confrontos começa quando Flávio utiliza a expressão “nove dedos” para atacar Lula. O presidente cobra uma retratação e relaciona a perda do dedo ao acidente de trabalho que sofreu na juventude. Posteriormente, o senador pede desculpas, mas retoma as críticas ao governo. Lula também dirige ataques ao adversário e questiona sua capacidade de administrar o país.
A discussão alcança as regras do programa. Flávio reclama quando Lula utiliza o tempo que havia reservado para a tréplica. Pelo formato estabelecido, cada participante pode distribuir os três minutos da rodada entre suas intervenções, sem que isso represente concessão de tempo adicional.
Saúde, educação e renda
No debate sobre serviços públicos, Lula cobra investimentos no SUS. Flávio afirma que pretende ampliar recursos e atualizar a tabela de pagamentos do sistema. Na educação, o presidente propõe estender o Pé-de-Meia às universidades; o senador promete manter o programa e fortalecer o ensino integral e técnico.
Flávio também reconhece como erro seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual. Sobre renda, os candidatos apresentam medidas relacionadas ao endividamento: o senador fala em congelar dívidas, enquanto Lula cita iniciativas para microempreendedores.
Ana Clara e segurança pública
A discussão sobre combate ao crime leva Lula a cobrar explicações sobre a atuação de Flávio na defesa de um policial acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos. A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, acompanha o encontro nos estúdios. Durante a discussão, o senador confunde o nome da mãe com o da criança, o que provoca reação de aliados de Lula na plateia.
Ana Clara morre após ser atingida por um disparo de fuzil em fevereiro de 2021, em Niterói. Flávio aparece entre os advogados do policial Bruno Dias Delaroli em um recurso para impedir que ele seja levado ao Tribunal do Júri. O STJ rejeita o pedido em 2024. Segundo reportagem publicada em 19 de outubro, o acusado ainda não havia sido julgado e negava que o tiro tivesse partido de sua arma.
Na Globo, Flávio classifica a morte como uma tragédia e afirma acreditar que o policial não é o autor do disparo. Defende medidas de endurecimento penal. Lula, por sua vez, promete criar o Ministério da Segurança Pública.
Bets e disputa por imóvel
As apostas também motivam acusações sobre quem responde pela expansão do mercado. A cronologia exige distinguir modalidades: Temer autoriza as apostas esportivas em 2018; Bolsonaro deixa vencer o prazo de regulamentação em 2022; Lula sanciona, em 2023, a legislação que inclui jogos on-line.
No quarto bloco, Lula cobra Flávio sobre o imóvel disputado por Richarlison em Angra dos Reis. O senador nega envolvimento e sustenta que o problema do jogador está relacionado ao empresário.
O atleta afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões na propriedade e contesta a operação que beneficia uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz. Reportagem do UOL mostra mensagens nas quais Flávio encaminha ao jogador um acordo sobre o imóvel. Richarlison diz não ter autorizado a negociação. Tomaz sustenta a legitimidade da operação, e Flávio nega participação no litígio.
O nome do banqueiro Daniel Vorcaro também aparece na troca de acusações do bloco final. Os candidatos procuram vincular o adversário ao empresário, acrescentando outra frente de confronto à disputa pelos votos de domingo.
Legenda: Lula e Flávio Bolsonaro durante debate da Globo, no Rio de Janeiro, antes do segundo turno presidencial — Foto: Reprodução/TV Globo


